Postagens

Mostrando postagens de agosto, 2025

Diálogo inter-religioso: perspectivas a partir de uma teologia protestante - Final

 Conclusão O caminho do DIR tem desafios, tanto teóricos quanto práticos. A teologia católica, em nível mundial, tem produzido vasta literatura a respeito. A teologia protestante, de igual maneira, também tem feito suas contribuições à compreensão do que significa DIR, e na sua vivência, mais em outras latitudes que no Brasil. O principal desafio teórico, para católicos e protestantes no que diz respeito ao DIR se encontra no nível teológico: como promover o diálogo sem abrir mão do proprium do cristianismo? Não será pela via da relativização que se conseguirá produzir verdadeiramente um diálogo. Quanto a isto, cabem as palavras de Lesslie Newbigin (1909-1998), bispo anglicano inglês que foi missionário de carreira na Índia e que foi um dos primeiros bispos da Church of South India (Igreja do Sul da Índia), uma união de igrejas locais congregacionais, presbiterianas, anglicanas e metodistas que se formou em 1947, logo após a Índia ter logrado sua autonomia política da Grã-Bret...

Diálogo inter-religioso: perspectivas a partir de uma teologia protestante - 3

 E, como se verá na seqüência, outros teólogos de tradição protestante também ofereceram suas contribuições para o DIR. Um dos mais conhecidos é o inglês John Hick (1922-2012)8. Sua posição é indubitavelmente a do pluralismo, e de maneira radical. Influenciado pela distinção kantiana entre númeno e fenômeno, Hick argumenta quanto à (im)possibilidade do ser humano conhecer o Real (o termo genérico que utiliza para designar “Deus”, o Transcendente Último, o Ser-em-si). O númeno, (Das Ding an sich) não pode ser conhecido, apenas pensado. Hick concebe a relação do ser humano com Deus em termos como Kant entendeu a relação entre a mente humana e o mundo. Na perspectiva de Hick, as religiões são o fenômeno, tentativas de se atingir o númeno. A posição de Hick tem sido pesadamente criticada, tanto de uma perspectiva filosófica, como por uma teológica. Não será exagero afirmar que Hick é relativista, entendendo ser impossível conhecer a Verdade. Logo, todo esforço para se atingir o númeno ...

Diálogo inter-religioso: perspectivas a partir de uma teologia protestante - 2

 2 O estado da arte atual da pesquisa sobre o DIR no Brasil Tendo apresentado, em síntese, o que se entende por DIR, e seus três principais paradigmas, partir-se-á agora para uma apresentação do status questionis da pesquisa a respeito no Brasil. Desnecessário dizer que tanto este ponto do artigo como o próximo pretendem apresentar o momento atual da pesquisa no Brasil, todavia, sem pretensão de exaustividade. Não existe a intenção de apresentar um panorama completo com tudo que foi publicado a respeito no país. Tal pretensão foge por completo aos objetivos do artigo. A pesquisa produzida por teólogos católicos a respeito do DIR, no Brasil e no mundo, nos últimos 50 anos, é resultado, influência e consequência do já mencionado documento Nostra Aetate, do Vaticano II. A partir daí, inúmeros teólogos passaram a dedicar sua atenção ao tema. Alguns destes o fizeram a partir de sua experiência missionária em contextos nos quais o cristianismo é minoria. É este o caso, por exemplo, do te...

Diálogo inter-religioso: perspectivas a partir de uma teologia protestante - 1

Carlos Ribeiro Caldas Filho  Resumo A questão do diálogo inter-religioso (DIR) tem sido uma questão de fronteira na teologia, pelo menos desde as últimas cinco décadas do século passado. Diferentes possibilidades teóricas de abordagem da questão têm sido propostas. Destas, as mais conhecidas são a reação contra o diálogo, o exclusivismo, e as duas favoráveis, o inclusivismo e o pluralismo. Neste sentido, são notáveis as contribuições de teólogos católicos ocidentais, sejam estes europeus, como Claude Geffré, Jacques Dupuis e Karl Rahner; estadunidenses como Roger Haight e Paul Knitter; brasileiros como Faustino Teixeira e Roberlei Panasiewicz; ou os asiáticos, como Michael Amaladoss, Raimon Panikkar, Tissa Balasurya e Aloysius Pieris. A literatura a respeito no Brasil tem contemplado mais esta produção católica, e não se tem refletido muito a respeito da contribuição protestante sobre esse tema. Por isso, o presente artigo pretende contribuir para o debate ao apresentar algumas con...

Como a teologia de Maria Clara Bingemer ajudou-me na formulação do princípio pluralista - 2

  A pluralidade religiosa tem sido vivida nas tensões tanto em relação ao processo de secularização como no que se refere à convivência conflitiva das diferentes religiões. O pressuposto é que a vivência atual, bastante distinta das gerações passadas, tem sido estabelecida nos entrelugares interativos que, por um lado, são marcados por formas de ateísmo, de descrença e de indiferença religiosa, e, por outro, pelo fortalecimento e reavivamento de várias experiências religiosas, novas e tradicionais. Bingemer chama a atenção para o fato de que a convivência entre pessoas e grupos de variadas religiões gera um tipo de dilaceramento entre o amor e a verdade. Ou seja, na medida em que há o desejo e o próprio movimento de ir em direção ao outro, escutá-lo e aprender dele, as verdades e identidades preestabelecidas passam por processos desconstrutivos, e todas as partes envolvidas são chamadas a reconstruir “processos graciosos e recíprocos” (Bingemer, 2002b, p. 321). Uma das questões qu...

Como a teologia de Maria Clara Bingemer ajudou-me na formulação do princípio pluralista - 1

 [...]                                     Espiritualidade, pluralismo e diálogo Os setores acadêmicos têm sido cada vez mais desafiados pelos temas relativos à religião, especialmente pelas tensões entre a racionalidade moderna e a emergência das subjetividades que marcaram o desenvolvimento do pensamento no final do século passado em diferentes continentes.   A explosão mística e religiosa vivenciada no final do século 20 e nas duas primeiras décadas do 21, em diferentes contextos socioculturais, revela, entre outros aspectos, um esgarçamento da razão moderna como doadora de sentido para a humanidade (Bhabha, 2001; Mignolo, 2008).   Décadas atrás, Maria Clara Bingemer, que tem dedicado muitos esforços para compreender a intensificação das experiências religiosas naquilo que por diversas vezes chamou de “sedução do sagrado”, já indicara que:   Insatisfação, vazio, dese...

Pluralidade religiosa: o preço do diálogo

  Nos anos 1990, eu trabalhava meio expediente como pesquisadora no Centro João XXIII de Investigação e Ação Social dos jesuítas. Um dia veio procurar-me um intelectual judeu que eu conhecia. Propôs-me fazer um evento conjunto com a Associação Israelita do Rio de Janeiro (ARI) para celebrar os 30 anos da morte de João XXIII, por quem a comunidade judaica tinha verdadeira veneração. Aceitei com muita alegria. Preparamos o evento, que foi emocionante para judeus e cristãos, e mesmo para outros de nenhuma religião que ali estiveram. Ao final foi servido um lanche. Notei no ar um certo constrangimento e logo percebi por quê. Os sanduíches estavam recheados com presunto. Havíamos nos esquecido de que os judeus ortodoxos não comem carne de porco. A dificuldade foi rapidamente sanada, mas aquele episódio ensinou-me muito. Vi que ainda estávamos – como ainda estamos – no diálogo interreligioso e temos um mundo a aprender. Dispor-se a dialogar com o outro, o diferente, o que pratica outro c...