Diálogo inter-religioso: perspectivas a partir de uma teologia protestante - 3
E, como se verá na seqüência, outros teólogos de tradição protestante também ofereceram suas contribuições para o DIR. Um dos mais conhecidos é o inglês John Hick (1922-2012)8. Sua posição é indubitavelmente a do pluralismo, e de maneira radical. Influenciado pela distinção kantiana entre númeno e fenômeno, Hick argumenta quanto à (im)possibilidade do ser humano conhecer o Real (o termo genérico que utiliza para designar “Deus”, o Transcendente Último, o Ser-em-si). O númeno, (Das Ding an sich) não pode ser conhecido, apenas pensado. Hick concebe a relação do ser humano com Deus em termos como Kant entendeu a relação entre a mente humana e o mundo. Na perspectiva de Hick, as religiões são o fenômeno, tentativas de se atingir o númeno. A posição de Hick tem sido pesadamente criticada, tanto de uma perspectiva filosófica, como por uma teológica. Não será exagero afirmar que Hick é relativista, entendendo ser impossível conhecer a Verdade. Logo, todo esforço para se atingir o númeno é igualmente válido. O já mencionado Michael Amaladoss tece uma crítica contundente, e bem formulada, a Hick:
Ele [Hick] não reinterpreta dogmas tradicionais cristãos. Ele apenas nega-os como “mitos”. Ele reduz o cristianismo/ a cristandade a uma teoria ética de amor e companheirismo mútuos. Se ele não leva nenhuma religião a sério em seus próprios termos, eu não vejo como ele pode promover diálogos entre religiões ou pessoas que acreditem nelas e estão prontas a morrer por elas [as religiões]. Apenas os não-crentes virão às suas sessões de “diálogo” [...] Você não promove diálogo inter-religioso se não leva as religiões a sério. A maioria das religiões – cristianismo, hinduísmo, islamismo – não se vêem como meros esforços humanos para conhecer o Real, mas como uma auto-revelação de Deus que chama por respostas. Na verdade, cada religião abre espaço para outras religiões com suas próprias percepções de fé. Isso aconteceu com o cristianismo no século XX. A abertura do cristianismo a outras religiões e ao diálogo não é resultado de uma meta-teoria filosófica como esta do Hick, mas a convicção de que o Espírito de Deus também está presente e ativo em outras religiões, e que esse Deus tem um plano para todas as pessoas. Então realmente não penso que o livro [9] seja útil – não apenas aos cristãos, mas para qualquer fiel sério de qualquer religião. Apelará apenas aos intelectuais secularizados que pensam que a melhor forma de promover igualdade é relativizando tudo (IHU, 2012).
Outra contribuição protestante interessante para o DIR é a que tem sido vivenciada pelo movimento ecumênico institucional protestante, desde a Conferência de Edimburgo, em 1910, passando por reuniões anteriores à Segunda Guerra Mundial, até a organização do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) em Amsterdam, em 1948. O teólogo metodista cingalês S. Wesley Ariarajah (n. 1941), autor de vasta obra a respeito (ARIARAJAH, 1985, 1991, 1999), expôs de maneira didática a história do envolvimento do movimento ecumênico com o DIR. Nos primórdios desta trajetória, era muito forte a influência de Karl Barth, via o missiólogo reformado holandês Hendrik Kraemer (1888-1965), figura importante do movimento ecumênico. Kraemer, seguindo Barth, entendia o cristianismo como lugar único da revelação de Deus em Cristo. A influência de Kraemer foi decisiva na Conferência Missionária Internacional em Tambaran (Índia) em 1938, e nos anos seguintes. Décadas depois é que o DIR foi assumido pelo CMI. Conforme Ariarajah,
Uma conferência do CMI em Kandy, Sri Lanka, em 1967, foi um marco divisório do início do interesse sério no diálogo inter-religioso como tal no CMI, e como o primeiro envolvimento na discussão ecumênica do Secretariado do Vaticano para Não Cristãos. Em Kandy, Kenneth Cragg desafiou de maneira decisiva a atitude Barth-Kraemer em relação às religiões, que dominara o pensamento protestante nas décadas passadas (ARIARAJAH, 2002, tradução nossa).
O CMI tem produzido documentos que orientam suas igrejas-membro na prática propriamente (e não apenas na teorização) do DIR. O primeiro esforço neste sentido data de 1979, com a publicação de um documento intitulado Guidelines on Dialogue with People of other Faiths and Ideologies (“Orientações para o diálogo com pessoas de outros credos e ideologias”). Este documento fora formulado dois anos antes em uma reunião em Chiang Mai, Tailândia, por um grupo de teólogos protestantes (muitos deles asiáticos) ligados ao CMI. Em 2009 o documento foi revisado e atualizado, e mais uma vez submetido às suas igrejas-membro, com intuito de orientar na prática o povo das igrejas na vivência concreta do DIR (WCC, 2004).
Outra contribuição protestante importante para o DIR é a feita pelo cientista da religião canadense Wilfrid Cantwell Smith (1916-2000), que era membro da Igreja Unida do Canadá (United Church of Canada)10. Smith organizou em 1952 o Institute of Slamic Studies (“Instituto de Estudos Islâmicos) da Universidade McGill, em Montreal, o primeiro do gênero em toda a América do Norte (INSTITUTE OF SLAMIC STUDES, 2017). Talvez a obra mais importante de Smith seja O sentido e o fim da religião (SMITH, 2006). Nesta obra, que pode ser enquadrada na perspectiva pluralista do DIR, Smith entende que o cristianismo é uma religião entre várias. Seu objetivo não é nem tanto teórico (como se percebe na abordagem de John Hick), mas de incentivar a busca de uma convivência fraterna e irênica entre adeptos de diferentes tradições religiosas:
Se uma pessoa cristã não conseguir ser, inteligente e espiritualmente, cristã não só em uma sociedade cristã ou em uma sociedade secular, mas também no mundo; se um muçulmano não puder ser um muçulmano no mundo; se um budista não lograr obter um lugar em um mundo em que outras pessoas inteligentes, sensíveis e educadas são cristãs e muçulmanas – se não conseguirmos resolver juntos as questões intelectuais e espirituais colocadas pela religião comparativa, então não vejo como uma pessoa possa ser, de alguma forma, cristã ou muçulmana ou budista (SMITH, 2006, p. 23).
Ainda com respeito à contribuição ao DIR promovida pelo CMI, há que se destacar a colaboração de teólogos de tradição protestante que vivem em contextos onde o cristianismo é minoria. O CMI tem sido um elemento de aglutinação destes teólogos. Dentre estes vários podem ser citados. Poderá parecer contraditório ou incoerente, mas o primeiro que será mencionado não era protestante, nem tampouco católico: o indiano Madathilparampil Mamen Thomas, ou mais simplesmente, M. M. Thomas (1916-1996), que era membro da Malankara Mar Thoma Syrian Church, isto é, a igreja cristã presente há séculos na Índia, produto de trabalho missionário da igreja ortodoxa siríaca11. Ele é citado neste artigo como exemplo de teólogo cristão não católico que elaborou uma teologia do pluralismo religioso e advogou o DIR, mas, todavia, é virtualmente ignorado pela literatura técnica produzida a respeito no Brasil. M. M. Thomas foi Moderador do CMI de 1968 a 1975, e foi autor prolífico, sempre com foco cristocêntrico, pensando o contexto político, social e religioso indiano a partir da perspectiva da fé cristã (THOMAS, 1987).
Outro teólogo asiático de tradição protestante (metodista) que tem pensado o DIR e as relações do cristianismo com as tradições religiosas do seu continente é o taiwanês Choan Seng Song (n. 1929), que exerceu papel ativo no Conselho de Educação Teológica do CMI. Naquela que talvez seja sua obra principal, Theology from the Womb of Asia (Teologia a partir do útero da Ásia), Song critica uma teologia cristã feita a partir de moldes eurocêntricos, e defende uma hermenêutica teológica para o contexto asiático produzida levando-se a sério questões contextuais culturais e religiosas asiáticas (SONG, 1986). Song afirma que foi exatamente isto que Jesus fez, em seu contexto do Oriente Médio, e é o que os cristãos na Ásia devem fazer para que produzam uma teologia contextual e socialmente relevante (SONG, 1986, p. 17-18).
Outro teólogo protestante asiático participante do CMI (foi um dos preletores principais na Assembleia do CEMI em Nairóbi, Quênia, em 1975) e envolvido com o DIR foi o japonês Kosuke Koyama (1929-2009), que era membro da Igreja Unida de Cristo (United Church of Christ, uma denominação evangélica de origem estadunidense). Koyama foi missionário cristão na Tailândia, entre populações rurais de tradição budista. Como fruto de sua experiência missionária, Koyama produziu uma obra que reflete um dialogo entre cristianismo e budismo (KOYAMA, 1979, 1999). Koyama propõe uma teologia dialógica, e com indisfarçável dose de bom humor, propõe que a teologia cristã deve misturar uma pitada de pimenta aristotélica com sal budista (KOYAMA, 1999, p. 56-63).
Kitamori Kazoh (1916-1998) foi outro teólogo protestante japonês que produziu uma teologia cristã que leva a sério o DIR. De acordo com John Thomas Hastings, Kitamori Kazoh, juntamente com o citado Kosuke Koyama, foi um dos principais teólogos protestantes japoneses do século passado (HASTINGS, 2001, p. 445-446). Era membro da Igreja Unida de Cristo no Japão. Pode-se dizer que o envolvimento de Kazoh com o DIR se deu em termos teóricos, no sentido que elaborou uma teologia cristã estabelecendo ligações entre alguns termos da tradição japonesa com elementos cristãos. Seu livro mais conhecido é Theology of the Pain of God (“Teologia do sofrimento de Deus”). O proprio titulo do livro já deixa claro que Kazoh trabalhou a partir de categorias asiáticas, não aristotélicas, que sugerem um Deus impassível. Para Kazoh, o sofrimento existe em Deus não como substancia (outro termo técnico tradicional da filosofia arisotelica), mas como resultado de seu relacionamento com o ser humano (KAZOH, 1965).
Mesmo que breve, há que se mencionar o coreano de origem presbiteriana Yi Jeong Yong (1935-1996). Tal como Kitamori Kazoh, Jeong Yong vivenciou o DIR em termos de construir uma teologia que dialogou com conceitos filosóficos tradicionais do Extremo Oriente, como a relação entre yin e yang. Desta maneira, ele (re)(des)construiu uma teologia cristã clássica, elaborada segundo um modelo de filosofia grega. Outro ponto de contato entre as teologias de Kitamori Kazoh e de Yi Jeong Yong está no acento dado ao sofrimento de Deus (o que é compreensível, quando se lembrar-se que ambos escreveram em contextos budistas). Esta marca no sofrimento divino aponta para um possível ponto de contato entre estas teologias produzidas no Leste da Ásia com a teologia latino-americana que, seguindo caminhos teóricos diferentes, tem enfatizado a solidariedade de Deus em Cristo para com os sofredores do mundo. A grande preocupação de Jeong Yong foi produzir uma teologia contextual multicultural não apenas conforme padrões ocidentais, mas uma que fosse relevante e compreensível para cristãos de contextos culturais tão diversos como o coreano e o dos Estados Unidos, pais para onde se mudou depois da Guerra da Coréia (YONG, 1995).
E sobre a reflexão a respeito do DIR no Brasil, qualquer consideração a partir de uma perspectiva protestante não pode deixar de mencionar a contribuição de Rudolf Von Sinner, germano-suíço radicado no país. Em Confiança e convivência. Reflexões éticas e comunitárias (VON SINNER, 2007), coletânea de textos do mesmo autor, Von Sinner apresenta a relação concreta entre ecumenismo e paz (VON SINNER, 2007, p. 69-85), os desafios de uma hermenêutica ecumênica, com ênfase nos teólogos católicos Leonardo Boff e Raimon Panikkar (VON SINNER 2007, p. 87-117), sua própria compreensão do DIR (VON SINNER, 2007, p. 119-131) e um ensaio final sobre igreja em perspectiva ecumênica (VON SINNER, 2007, p. 133-147). Von Sinner contribui para tornar o tema do DIR conhecido entre o meio protestante/evangélico brasileiro, onde ainda predomina uma visão exclusivista a respeito das religiões mundiais. Nas palavras de Von Sinner,
O diálogo implica uma posição própria e uma postura de abertura frente ao outro. Somos de religiões diferentes, de certo modo incomensuráveis. Mas a partir da confiança em Deus que quer salvar a todas e todos, tenho uma base comum – embora bastante vaga – que é a condição da possibilidade da aprendizagem. Eu pressuponho, portanto, que posso aprender algo do outro e da outra. Aqui começa o diálogo, com base na confiança em Deus. Leio minha própria fé e a fé do outro e da outra por essa confiança e penso que nós nos ajudamos mutuamente na aprendizagem sobre Deus e nosso lugar e atuação no mundo, portanto é uma hermenêutica da confiança (VON SINNER, 2007, p. 130, ênfase do autor). (continua)
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