Diálogo inter-religioso: perspectivas a partir de uma teologia protestante - 2
2 O estado da arte atual da pesquisa sobre o DIR no Brasil
Tendo apresentado, em síntese, o que se entende por DIR, e seus três principais paradigmas, partir-se-á agora para uma apresentação do status questionis da pesquisa a respeito no Brasil. Desnecessário dizer que tanto este ponto do artigo como o próximo pretendem apresentar o momento atual da pesquisa no Brasil, todavia, sem pretensão de exaustividade. Não existe a intenção de apresentar um panorama completo com tudo que foi publicado a respeito no país. Tal pretensão foge por completo aos objetivos do artigo.
A pesquisa produzida por teólogos católicos a respeito do DIR, no Brasil e no mundo, nos últimos 50 anos, é resultado, influência e consequência do já mencionado documento Nostra Aetate, do Vaticano II. A partir daí, inúmeros teólogos passaram a dedicar sua atenção ao tema. Alguns destes o fizeram a partir de sua experiência missionária em contextos nos quais o cristianismo é minoria. É este o caso, por exemplo, do teólogo jesuíta franco-belga Jacques Dupuis (1923-2004), que atuou como missionário de carreira na Índia (de 1948 a 1984). Dupuis foi um dos pioneiros, e ao mesmo tempo, um dos mais ousados pensadores neste campo, ao sugerir em Verso una teologia Cristiana del pluralismo religioso (DUPUIS, 1999) a possibilidade que a salvação de Deus aconteça também fora dos limites do cristianismo. Dupuis recebeu uma notificação da Congregação para a Doutrina da Fe do Vaticano por conta das afirmações de seu livro (CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, 2001).
A menção a Dupuis se justifica por ter sido ele o mentor intelectual do principal teórico da teologia do pluralismo religioso no Brasil e do DIR. Trata-se do Professor Faustino Luis do Couto Teixeira, pesquisador de longa data do tema, e, consequentemente, com vasta produção a respeito (inter alia, 1993, 1997, 2012, 2014, sem embargo de artigos publicados sobre o tema pelo menos desde 1995). Teixeira é um dos primeiros a falar de teologia das religiões e de DIR no contexto brasileiro. Em sua longa carreira como professor universitário, como se verifica em seu Lattes, em nível de graduação e de pós-graduação, no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, desde 1992, especificamente sobre o tema do DIR, já ministrou 95 palestras, em eventos no Brasil e no exterior, orientou 11 dissertações de mestrado, seis teses de doutorado e três monografias de conclusão de curso, além de no momento estar a orientar uma tese de doutorado. O Professor Teixeira também tem ministrado disciplinas como Diálogo inter-religioso, Teologia do pluralismo religioso, Religião e diálogo, Teologia das religiões e Questões especiais de teologia das religiões, tanto no seu programa de origem, como também no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC Minas, na condição de professor visitante (em 2008). E a vastidão desta produção indica a paixão do Professor Teixeira pelo tema, qualificando-o sem dúvida como uma das maiores autoridades no tema do DIR no Brasil. Graças a tal labor acadêmico intenso obras de teólogos católicos contemporâneos importantes no campo da teologia das religiões e do pluralismo religioso têm sido divulgadas no Brasil, como Jacques Dupuis e Claude Geffré. Sua atuação “fez escola”, por assim dizer, se levar-se em conta que algumas pesquisas de seus “discípulos” foram publicadas (inter alia, PANASIEWICZ, 2010). Esta numerosa produção tem concentrado o foco nas origens, influxos, notas distintivas de diferentes teólogos e possibilidades teóricas para outras pesquisas sobre o DIR no horizonte da teologia católica contemporânea.
A pesquisa sobre o DIR no Brasil também tem sido enriquecida com a publicação de obras de outros teólogos católicos contemporâneos (inter alia, AMALADOSS, 2005; PIERIS, 2008; KNITTER, 2010).
Há também que se mencionar a divulgação do DIR levada a cabo pelo Instituto Humanitas (IHU) da Universidade do Rio dos Sinos (UNISINOS), de São Leopoldo (RS). Uma pesquisa sobre “diálogo inter-religioso” realizada no site da mencionada instituição em janeiro de 2017 indicou 3.820 resultados. São artigos e entrevistas sobre o tema, que se constitui em rico e abundante material de pesquisa de grande utilidade para qualquer estudioso do DIR no Brasil.
Uma característica que domina todos estes esforços de divulgação do e reflexão sobre o DIR no Brasil é o olhar voltado predominantemente para as produções de corte católico. Pouco se tem mencionado sobre a contribuição de acento protestante ao tema. Esta afirmação conduz ao próximo ponto do presente artigo.
3 Contribuições protestantes ao tema do diálogo inter-religioso
Se a reflexão católica sobre o DIR tem sua gênese na abertura do Vaticano II, a partir do documento Nostra Aetate, a teologia protestante a respeito, por não ter um organismo que aglutine e centralize suas ações em nível mundial, teria que obrigatoriamente partir de iniciativas de pensadores individuais. Neste sentido, uma das contribuições pioneiras foi a do teólogo luterano germano-americano Paul Tillich (1886-1965). Durante seu período de docência na Universidade de Chicago, tendo como colega o conhecido historiador das religiões romeno Mircea Eliade (1907-1986), propôs a formulação de uma teologia com base na revelação universal de Deus na história das religiões (BRAATEN, 1986, p. 27). Já em 1963 Tillich afirmou:
Devo dizer de novo que uma teologia cristã que não seja capaz de empreender um diálogo criativo com o pensamento teológico das outras religiões perde uma ocasião histórica mundial e permanece provincial (apud GEFFRÉ, 2013, p. 5).
Em 1960 Tillich fez uma viagem ao Japão, lá permanecendo de 3 de maio a 10 de julho. Neste período, palestrou, e teve contato e diálogos com mestres budistas e xintoístas (na cidade de Kyoto). Em um livro recente, o estudioso japonês Tomoaki Fukai recolheu um testemunho do próprio Tillich sobre o impacto que o período passado no Japão lhe causou:
Não consigo expressar o que isto significou antes de todas as impressões que tive; e é provável que outros venham a perceber a influência do Japão mais que eu mesmo. Mas eu sei que algo aconteceu: doravante, não tolerarei mais nenhum provincianismo ocidental do qual tenha consciência, em minha reflexão e na minha obra (TILLICH, apud FUKAI; TOMOAKI, 2013, p. 2, tradução nossa).
Esta experiência vivencial de fato causou impacto em Tillich. Portanto, no final de sua vida, ele expressou seu desejo de reescrever sua teologia sistemática a partir da história das religiões (RIBEIRO, 2000, p. 32; VON SINNER, 2007, p. 120; GEFFRÉ, 2013, p. 87). Interessante observar que um de seus últimos trabalhos versou sobre o significado da história das religiões para a teologia sistemática cristã (TILLICH, 1966, p. 80-94)7. O teólogo metodista brasileiro Claudio de Oliveira Ribeiro, também estudioso do tema do pluralismo religioso, oferece uma sistematização das pressuposições de Tillich para uma teologia das religiões, que, por conseguinte, podem (vir a) ser úteis como marcos teórico-conceituais para o DIR:
1) As experiências da revelação são universalmente humanas;
2) A revelação é recebida pelo ser humano, nas condições de caráter alienado que possui e na situação humana finita e limitada;
3) Em toda a história humana, não há somente experiências revelatórias particulares, mas há um processo revelatório no qual os limites de adaptação e as deficiências de distorção são sujeitas à critica, seja mística, profética ou secular;
4) Há um evento central na história das religiões que une os resultados positivos desta crítica e que nele e sob ele as experiências revelatórias acontecem. Um evento, portanto, que faz possível uma teologia concreta com um significado universal;
5) A história das religiões, em sua natureza essencial, não existe ao lado da história e da cultura. O sagrado não está ao lado do secular, mas ele é a sua profundidade. O sagrado é o chão criativo, e ao mesmo tempo um juízo crítico do secular (RIBEIRO, 2000, p. 34-35; 2014, p. 42-53).
Tillich não compartilha do pessimismo de Barth quanto às religiões. Muito pelo contrário, Tillich vê a busca humana pelo Sublime, pelo Santo, pelo Sagrado, busca esta que assume diferentes formas culturais, como expressão do Ultimate concern (“in-quietude final”, cf. GOUVEA, 2014, p. 93-103) humano, para o qual convergem todas as religiões. Claude Geffré faz uma leitura da contribuição pioneira de Tillich para o DIR e afirma:
Toda a sua [de Tillich] está, de fato, sob o signo da doutrina paulina, ao mesmo tempo cósmica e escatológica, da nova criação. Ele se distancia, assim, do paulinismo dos primeiros reformadores e de Karl Barth, que é a doutrina da justificação pela fé. Ele se inscreve, portanto, de maneira original, na continuidade com a doutrina tradicional dos Padres da igreja sobre o Logos universal e sobre as “sementes do Verbo” espalhadas por toda a criação. E assenta o princípio de toda teologia cristã das religiões. Se Cristo é o absolutamente concreto, então, de certa maneira, o cristianismo como religião particular já está implícito nas outras religiões. E estas são uma manifestação particular do Logos universal (GEFFRÉ, 2013, p. 96).
Certamente há em Tillich muito material que poderá ser explorado para uma reflexão crítica sobre o DIR. É o caso do teólogo luterano alemão Reinhold Bernhardt (2004, p. 58-72) que, a teologia da trindade de Tillich tem potencial para servir de marco teórico para uma teologia – protestante – das religiões. Conforme Bernhardt,
Na abordagem da doutrina da trindade de Tillich, que ele próprio só fez frutificar para uma teologia das religiões em forma de alusões, estão contidos potenciais significativos para a teologia das religiões, como, por exemplo, a acentuação da infinitude, universalidade e incognoscibilidade última do fundamento divino do ser. Segundo seu diagnóstico, no protestantismo essa dimensão do caráter misterioso e abissal de Deus teria passado ao segundo plano devido à acentuação da auto-definição de Deus em Jesus Cristo. Tillich contrapõe a isso sua definição do ser-em-si como fundamento e abismo insondável. Em seu pensamento, porém, essa definição – mediada pelo padrão de pensamento da teologia da trindade – se associa à ideia da revelação. Dessa maneira, ele não precisa interpretar a relação entre Deus-em-si e Deus-para-nós nos moldes de uma posposição. O Deus-para-nós é o auto-despojamento do Deus-em-si, que, em sua essência, está direcionado para o auto-despojamento (BERNHARDT, 2004, p. 68). (continua).
Comentários
Postar um comentário