Diálogo inter-religioso: perspectivas a partir de uma teologia protestante - 1

Carlos Ribeiro Caldas Filho

 Resumo

A questão do diálogo inter-religioso (DIR) tem sido uma questão de fronteira na teologia, pelo menos desde as últimas cinco décadas do século passado. Diferentes possibilidades teóricas de abordagem da questão têm sido propostas. Destas, as mais conhecidas são a reação contra o diálogo, o exclusivismo, e as duas favoráveis, o inclusivismo e o pluralismo. Neste sentido, são notáveis as contribuições de teólogos católicos ocidentais, sejam estes europeus, como Claude Geffré, Jacques Dupuis e Karl Rahner; estadunidenses como Roger Haight e Paul Knitter; brasileiros como Faustino Teixeira e Roberlei Panasiewicz; ou os asiáticos, como Michael Amaladoss, Raimon Panikkar, Tissa Balasurya e Aloysius Pieris. A literatura a respeito no Brasil tem contemplado mais esta produção católica, e não se tem refletido muito a respeito da contribuição protestante sobre esse tema. Por isso, o presente artigo pretende contribuir para o debate ao apresentar algumas contribuições a respeito do diálogo inter-religioso e a sua prática, a partir da teologia protestante.

Palavras-chave: Diálogo inter-religioso; Teologia protestante contemporânea; Conselho Mundial de Igrejas; Teologia das religiões.

 Introdução

O presente artigo seguirá o seguinte roteiro:

1) Conceituação de diálogo inter-religioso

2) O estado da arte da pesquisa a respeito no Brasil

3) Contribuições protestantes ao tema do diálogo inter-religioso

Na primeira parte, será apresentada, ainda que em síntese, e em perspectiva crítica, o que se entende por diálogo inter-religioso (doravante, DIR), e as principais linhas teóricas de abordagem ao tema: 0 exclusivismo, o inclusivismo e o pluralismo.

A seguir, ao apresentarem-se as pesquisas a respeito no Brasil tentar-se-á comprovar a hipótese operacional do artigo, qual seja, que a produção acadêmica brasileira sobre o tema tem concentrado sua atenção nas contribuições católicas, e em grande medida, deixado de lado as contribuições protestantes. Talvez este “esquecimento” seja opção metodológica, ou seja, a deliberação consciente de se fazer um recorte e concentrar a atenção nas elaborações sobre o DIR que são produto da reflexão crítica de pensadores católicos. Tal expediente sem dúvida é legítimo. Sem entrar no mérito da questão, o presente artigo não pretende apresentar um contraponto propriamente. Antes, se propõe a fazer um complemento a esta perspectiva que tem sido a dominante na literatura especializada no Brasil até o momento.

Por fim, o fechamento do texto apresentará, também em perspectiva crítica, algumas contribuições protestantes relevantes quanto ao tema. A apresentação destas contribuições poderá enriquecer e adensar o debate.

O que é diálogo inter-religioso

O DIR não deve ser confundido com diálogo ecumênico nem com diálogo intercredal. Neste sentido, uma distinção simples, mas útil, é a apresentada pelo Escritório de Questões Ecumênicas e Inter-Religiosas da Arquidiocese de Chicago (ARCHDIOCESE OF CHICAGO, 2017). Serão apresentadas as distinções elaboradas pela Arquidiocese de Chicago, seguidas de detalhes históricos e observações críticas:

• Diálogo ecumênico é o diálogo e o esforço conjunto vivenciado intramuros, no seio da fé cristã. O principal órgão de esforço ecumênico em nível mundial é o Conselho Mundial de Igrejas, World Council of Churches – WCC em inglês (doravante, CMI), organizado em 1948 em Amsterdam, com escritório central em Genebra, Suíça. Atualmente o CMI conta com 348 igrejas-membro, incluindo neste rol igrejas protestantes, anglicanas, independentes africanas, pentecostais e ortodoxas orientais autocéfalas (a Igreja Católica Apostólica Romana participa apenas como observadora, não sendo membro da entidade (WCC, 2017). A Declaração Conjunta Luterano-Católica Romana sobre a Doutrina da Justificação pela Fé, de 1999 (subscrita pela Conferência Metodista Mundial em 2005) é talvez o mais notável exemplo recente de esforço ecumênico visando um testemunho comum da fé cristã.

• Diálogo intercredal é o diálogo – ou melhor, triálogo – envolvendo os três credos monoteístas da tradição abraâmica, a saber, judaísmo, cristianismo e islamismo. Claude Geffré (n. 1926), teólogo dominicano francês, especialista no tema da teologia das religiões, refletindo a respeito de temas possíveis para a conversação neste triálogo, extraídos da herança teológica comum a estes credos, sugere três possibilidades: “o respeito do humano autêntico, o combate pela justiça, a salvaguarda da criação” (GEFFRÉ, 2013, p. 253-259).

• Diálogo inter-religioso, o tema propriamente do presente artigo, é o mais ousado, por assim dizer, e o mais difícil, pois envolve a conversação entre tradições religiosas que não compartilham uma raiz comum (como no caso do diálogo intercredal). Logo o DIR envolve relacionamentos entre expressões religiosas tão diferentes como o cristianismo, o hinduísmo e o budismo. O pressuposto básico do DIR é a crença na possibilidade do mysterium salutis da parte do Deus Criador operar para além dos limites institucionais do cristianismo. A admissão desta possibilidade deu azo ao desenvolvimento de uma vertente diferente do pensamento teológico, a teologia das religiões. Nas palavras do já mencionado Geffré,

A tarefa histórica da teologia consiste em refletir sobre a inscrição do Absoluto do mistério de Cristo nas outras tradições religiosas, não só no cristianismo, e em repensar de novo a relação entre a Igreja visível e o Reino de Deus (GEFFRÉ, 2013, p. 31).

Geffré chega a afirmar que o pluralismo religioso se constitui em um novo paradigma para a teologia. Sendo o DIR o foco do presente artigo, faz-se necessário dar-lhe apresentação pouco mais ampliada. Na literatura especializada está consagrada pelo uso a distinção entre as três principais correntes ou modelos de compreensão deste diálogo: o exclusivismo, o inclusivismo e o pluralismo.

O exclusivismo foi o modelo dominante na maior parte da história do cristianismo, e ainda hoje é o que predomina na maior parte dos círculos cristãos, católicos, protestantes e ortodoxos. Entende que o cristianismo é o único caminho de salvação. No caso do catolicismo romano, o exclusivismo parte de uma aplicação – equivocada, diga-se de passagem – do conhecido dito de Cipriano de Cartago, um dos Pais (Padres) Latinos da Igreja, do século terceiro da era cristã, que, comentando sobre os que ameaçavam abandonar a igreja, afirmou que extra ecclesiam nula salus– “não há salvação fora da igreja”. Sendo Cipriano um dos Pais Ante-Nicenos, um pensador pré-constantinianismo, não é razoável admitir que ele tenha pensado em termos de igreja enquanto instituição. Antes, a expressão de Cipriano refere-se à igreja enquanto corpo místico de Cristo, a Communio fidelium, aqueles que misteriosamente participam da Communio sanctorum. Em suma: o exclusivismo diz: “a minha religião é a única certa, a única verdadeira”.

No meio protestante o exclusivismo recebeu forte influência da teologia de Karl Barth (1886-1968), que, em seu programa de crítica ao liberalismo teológico protestante, no qual fora formado, resgatou a teologia do reformador francês João Calvino (1509-1564), relendo-a conforme as categorias do início do século passado. A teologia liberal protestante é fortemente antropocêntrica em seus fundamentos. Reagindo contra este antropocentrismo, Barth, ecoando Calvino, dá forte acento à transcendência de Deus, entendido como Das Andere, o Totaliter aliter, isto é, o“totalmente outro”, que se nos revela na pessoa de Jesus Cristo. Logo, toda religião é um projeto falido, fadado ao fracasso, pois é esforço humano para se achegar a Deus. A despeito da ressalva feita por Von Sinner (2007, p. 121), que a posição do teólogo da Basileia quanto às outras religiões não era tão fechada como em geral se pensa, a teologia da revelação de Barth não permite espaço para se pensar em outros termos que não sejam os do exclusivismo religioso. Pois em seu programa teológico, Barth contrasta revelação e religião: o cristianismo é o depositário da revelação de Deus em Cristo, enquanto a religião nada mais que a tentativa humana de operar sua própria salvação.

O inclusivismo é um pouco mais aberto, e é uma opção mais recente. O inclusivismo admite a possibilidade que, pelos muitos e misteriosos caminhos de Deus, a salvação aconteça fora e além dos limites do cristianismo. O resumo da posição inclusivista é: “as outras religiões são boas, mas a minha é a melhor”. No caso da teologia católica contemporânea, há pelo menos duas vertentes identificadas com o paradigma inclusivista: a assim chamada “teologia do acabamento”, defendida por teólogos como Jean Danielou, Henri de Lubac e Hans Urs Von Balthasar: as religiões são boas, mas encontram seu “acabamento”, seu “aperfeiçoamento” ou “remate” no cristianismo (TEIXEIRA, 2010). A outra, talvez a mais eloquente expressão de inclusivismo, é a apresentada na teologia de Karl Rahner (1904-1984), com sua famosa tese dos “cristãos anônimos”. Rahner parte de uma teologia da graça: toda salvação é dom gratuito, escandaloso e misterioso da graça de Deus. A graça antecede a experiência da salvação. Mais que isto, a graça antecede a própria busca pela salvação. O ser humano busca o que Rahner chama de “existencial sobrenatural”, e a busca em si já é iniciativa da graça divina em atuação no coração humano. A teologia de Rahner tem raiz remota no conceito de logos spermatikos , a semina Verbi, “semente do Verbo”, de Justino, o Mártir (100-165): em todas as culturas do mundo há centelhas, fagulhas da “verdadeira luz que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem” (João 1.9) (SEMINA VERBI, 2009). Outro elemento decisivo no pensamento de Rahner é sua compreensão da doutrina da graça, e também seu entendimento de textos como 1 Timóteo 2.4: “Ele (Deus) quer que todos sejam salvos e venham a conhecer a verdade” (Nova Tradução na Linguagem de Hoje), Rahner desenvolve sua teoria que não será a pertença institucional ao corpus christianum que definirá a vivência da salvação (RAHNER, 1971, p. 102-103). A posição inclusivista de Rahner foi, por um lado, bastante influente, mas ao mesmo tempo, recebeu (e recebe) muitas críticas. Esta visão tem o “mérito” de desagradar tanto exclusivistas mais tradicionais como pluralistas não conservadores. Para o exclusivista, a visão de Rahner é muito aberta, e para o pluralista, não é tão aberta quanto deveria ser... Outro ponto apresentado contra a tese rahneriana é a inversão do argumento: se há “cristãos anônimos”, pode haver também “muçulmanos anônimos” ou “budistas anônimos”. Mas não há dúvida que o ponto de vista inclusivista é um avanço, por assim dizer, em relação ao exclusivismo. Resumindo: na visão inclusivista “todas as religiões são boas, mas a minha é a melhor”.

O pluralismo por sua vez parte do pressuposto que “todas as religiões são igualmente boas”. Esta compreensão tem sido desenvolvida por vários teólogos católicos contemporâneos. Um destes é o catalão de origem indiana Raimon (algumas vezes seu nome aparece grafado na forma portuguesa Raimundo) Pannikkar (1918-2010) que, desde a década de 1960, com sua tese de doutorado sobre o “Cristo desconhecido do Hinduísmo” (1981) tem proposto que o Cristo é o mediador entre Deus e o mundo, e que este Cristo é conhecido, por muitos e diferentes nomes, por fieis de todas as religiões (PANIKKAR, 1971a; 1971b). Outro é o estadunidense Paul Knitter (n. 1939). Autor prolífico, Knitter (2010) rebate um argumento muitas vezes usado contra os opositores das posições inclusivista e pluralista, que estas significariam o fim da missão evangelizadora cristã. Knitter argumenta que uma visão pluralista não necessariamente implicará na morte da missão cristã. Antes, redefine e revisa o conceito de missão, apresentando-a em termos de diálogo “globalmente responsável” (KNITTER, 2010, p. 131-188). Na mesma linha está o já mencionado Geffré, que no contexto católico, tendo como pano de fundo remoto a partir da Declaração Conciliar Nostra aetate – A declaração das relações da Igreja com as religiões não cristãs – de 1965, que afirma que a Igreja (Católica) deve aceitar o que há de “bom e santo” nas outras religiões, procura desenvolver um projeto de teologia das religiões tríplice em seus objetivos: 1) Compreender o sentido da evolução da teologia das religiões nos últimos quarenta anos; 2) Explicar teologicamente a razão do pluralismo religioso e assim fornecer um fundamento teológico para o diálogo inter-religioso encorajado pela Igreja depois do Vaticano II e, finalmente, 3) Manifestar a oportunidade do diálogo inter-religioso para uma melhor inteligência da singularidade do cristianismo como religião do Evangelho (GEFFRÉ, 2013, p. 6-7). (continua)

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