Como a teologia de Maria Clara Bingemer ajudou-me na formulação do princípio pluralista - 2

 

A pluralidade religiosa tem sido vivida nas tensões tanto em relação ao processo de secularização como no que se refere à convivência conflitiva das diferentes religiões. O pressuposto é que a vivência atual, bastante distinta das gerações passadas, tem sido estabelecida nos entrelugares interativos que, por um lado, são marcados por formas de ateísmo, de descrença e de indiferença religiosa, e, por outro, pelo fortalecimento e reavivamento de várias experiências religiosas, novas e tradicionais. Bingemer chama a atenção para o fato de que a convivência entre pessoas e grupos de variadas religiões gera um tipo de dilaceramento entre o amor e a verdade. Ou seja, na medida em que há o desejo e o próprio movimento de ir em direção ao outro, escutá-lo e aprender dele, as verdades e identidades preestabelecidas passam por processos desconstrutivos, e todas as partes envolvidas são chamadas a reconstruir “processos graciosos e recíprocos” (Bingemer, 2002b, p. 321).

Uma das questões que a autora apresenta é se a secularização é inimiga ou amiga da fé. Para respondê-la, podemos lembrar que no próprio contexto da fé judaico-cristã já se encontra uma interface com uma visão “mundana do mundo” em que a experiência religiosa não se impõe como compreensão unívoca, mas dirige-se a uma emancipação do ser humano em relação à religião. Isso dá-se de variadas formas como, por exemplo, o valor da dimensão humana e histórica no processo de encarnação, o plano das lutas pela justiça e pelos direitos que, mesmo sendo sagradas, são travadas na secularidade, a importância da Criação que, embora tenha uma interpretação religiosa, pois é de Deus, possui sua realidade terrena, imanente. Trata-se de uma interpretação positiva dos processos de secularização que veem a emancipação humana não como o “crepúsculo de Deus”, mas como reforço ao que já está engendrado na revelação bíblica (Bingemer, 2001). 

Na mesma direção, perguntaríamos se a emancipação humana significaria o crepúsculo de Deus. Isso porque tal visão nos levaria a uma face negativa que o contexto de modernidade e secularização produziu, uma vez que tal situação, embora tenha como perspectiva a emancipação de divindades heterônomas, impostas e ideologizadas por visões institucionalizadas, acaba por criar seus próprios deuses, secularizados, mas com o mesmo potencial idolátrico, a cujas leis todos devem obedecer cegamente. “Alguns desses novos deuses constituem verdadeiras idolatrias que interpelam profundamente a fé trinitária” (Bingemer, 2002b, p. 303). 

Para a autora, residem aí a “vendabilidade” de todas as coisas, que é o deus mercado, o culto à personalidade, o progresso visto como primazia em relação ao humano, o utilitarismo nas relações humanas, e o poder e o prazer desprovidos de alteridade e de sentido. Dessa forma, tanto os processos modernos de emancipação humana quanto as experiências religiosas podem se encontrar na busca de caminhos ante a vulnerabilidade das pessoas e de grupos diante desses novos deuses e ídolos ou também ante a perplexidade que o novo e complexo quadro religioso apresenta.

Nessas trajetórias – autênticas aventuras espirituais, segundo a autora – dão-se possibilidades criativas e profícuas de adesão livre à fé, que geram experiências religiosas mais autênticas, abertas e com dimensões cósmicas. “A teologia das religiões [...] estabelece, na escala do cosmo, uma maravilhosa convergência no mistério do Cristo, de tudo que Deus em seu Espírito, realizou ou continua a realizar na história da humanidade” (Bingemer, 2002b, p. 318).

Diante dessas e de outras questões, podemos perceber traços de uma sacralidade para os tempos difusos e confusos em que vivemos hoje. Bingemer leva-nos a refletir sobre a experiência mística, dentro do quadro referencial da teologia cristã e da interpelação das múltiplas interfaces da realidade, até aqui descritas. A autora a compreende como expressão da experiência do amo e da caridade que alcança as profundezas da vivência humana a partir da sedução da alteridade.

Essa perspectiva também está na base do princípio pluralista, como destacaremos na sequência. Bingemer analisa a “religião do outro” como desafio singular de uma interface a ser explorada e de “um caminho a ser feito em direção a uma comunhão que não suprima as diferenças, enriquecedoras e originais, mas que encontre, na sua inclusão, um ‘novo’ no qual se pode experimentar coisas novas suscitadas e propiciadas pelo mesmo Deus” (Bingemer, 2002b, p. 320).

A espiritualidade que perpassa tal perspectiva gera abertura e acolhimento do outro. No tocante à teologia, uma visão ecumênica abre-se.

 

A partir dessa face plural, geradora de uma interface plurirreligiosa, a experiência do sagrado realizada dentro do cristianismo, em outras palavras, a mística cristã hoje é interpelada e chamada a aprender das experiências místicas e espirituais de outras religiões. E isso, não para deixar de ser cristã, mas para que a experiência de Deus que está no coração de sua identidade dê e alcance toda a sua medida.

 

Assim como há algo que só o outro gênero, o outro sexo, a outra cultura, a outra raça, a outra etnia, podem ensinar sobre mística, há também, sem dúvida, algo que apenas a religião do outro, na sua diferença, pode ensinar, ou enfatizar. Às vezes, trata-se simplesmente de um ponto ou uma dimensão que descobrimos na nossa experiência religiosa, mas do qual ainda não nos havíamos dado conta (Bingemer, 2002b, p. 319).

 

Os temas relacionados aos debates sobre espiritualidade, pluralismo e diálogo são abordados por Bingemer ao longo de sua obra a partir de diferentes referenciais teóricos. Entre eles, sobressaem-se sobretudo as teologias trinitárias, como as de Jürgen Moltmann, por exemplo, e perspectivas da teologia católica conciliar moderna, dialógica e ecumênica, com destaque para os escritos de Karl Rahner. No campo latino-americano, Bingemer dialoga com as visões pluralistas e com a valorização da relação entre teoria e prática, especialmente de Leonardo Boff e João Batista Libânio. Esse conjunto de referências, somado a diversas visões que ganham relevância quando os temas abordados por Bingemer são outros, oferecem amplitude temática e metodológica ao trabalho dela. Isso explica a ênfase da autora em vários aspectos que marcam o cenário da reflexão teológica na atualidade.

Nesse sentido, a valorização da pluralidade religiosa, a recuperação do sentido espiritual da gratuidade, a crítica às formas de fixismo, o interesse e inclinação para se repensarem categorias filosóficas e teológicas tradicionais, a interface com as ciências e com a espiritualidade, a abertura à sedução gratuita do sagrado como possibilidade amorosa e realizadora e o diálogo com tradições religiosas diferentes formam placas de um caminho que necessita ser reinventado a cada momento (Bingemer, 2020). Tais indicações, presentes na produção teológica da autora, foram importantes na formulação do princípio pluralista, uma vez que todos esses aspectos compõem as bases conceituais dele (Ribeiro, 2020) e acompanham, em larga medida, o aprofundamento dessa visão com a qual temos concebido as pesquisas sobre a pluralidade religiosa e cultural dentro dos estudos de religião.

Veja na net:

https://www.researchgate.net/publication/383506694_Como_a_teologia_de_Maria_Clara_Bingemer_ajudou-me_na_formulacao_do_principio_pluralista

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