Como a teologia de Maria Clara Bingemer ajudou-me na formulação do princípio pluralista - 1

 [...]                                    Espiritualidade, pluralismo e diálogo

Os setores acadêmicos têm sido cada vez mais desafiados pelos temas relativos à religião, especialmente pelas tensões entre a racionalidade moderna e a emergência das subjetividades que marcaram o desenvolvimento do pensamento no final do século passado em diferentes continentes.

 A explosão mística e religiosa vivenciada no final do século 20 e nas duas primeiras décadas do 21, em diferentes contextos socioculturais, revela, entre outros aspectos, um esgarçamento da razão moderna como doadora de sentido para a humanidade (Bhabha, 2001; Mignolo, 2008).

 Décadas atrás, Maria Clara Bingemer, que tem dedicado muitos esforços para compreender a intensificação das experiências religiosas naquilo que por diversas vezes chamou de “sedução do sagrado”, já indicara que:

 

Insatisfação, vazio, desencanto, são sinônimos de vulnerabilidade, fragilidade emocional. E essa vulnerabilidade é terreno fértil para a sedução, que pode vir como sedução do Sagrado. [...] Nossas igrejas, com seu aparato institucional, sua hierarquia solidamente estruturada, seu bem preciso código de ética, suas liturgias pouco ou nada participativas, parece que perderam sua capacidade de sedução [...] (Bingemer, 1990b, p. 5).

 

Além desse aspecto, um olhar mais detido tem sido crescente no campo da teologia e das ciências da religião quanto aos desafios que as aproximações entre distintas experiências religiosas têm produzido. Não obstante o fortalecimento institucional e popular de propostas religiosas com acentos mais sectários e verticalistas – em geral, conflitivas e fechadas ao diálogo, marcadas por violência simbólica e de caráter fundamentalista –, o campo religioso tem experimentado também formas ecumênicas de diálogo entre grupos religiosos distintos (Aragão, 2023; Teixeira, 2014).

Diante desse quadro, surgem diferentes perguntas: como tal realidade, especialmente com suas contradições, incide no quadro social e político? Como elas interferem mais especificamente no fortalecimento de uma cultura democrática e de práticas afins? Qual é o papel de uma espiritualidade ecumênica em um projeto de paz e de aprofundamento da democracia para as futuras gerações?

Essas e outras questões similares não encontram respostas razoavelmente seguras. Há um longo e denso caminho de reflexão em direção ao amadurecimento delas. Os limites de nossa reflexão no momento não possibilitam equacioná-las, todavia alguns passos precisam ser dados.

 Temos apresentado, em diferentes trabalhos (Ribeiro, 2012, 2014), uma modesta síntese de alguns elementos da espiritualidade decorrente de experiências ecumênicas entre distintos grupos religiosos. Elas, em nosso ver, suscitam novos referenciais teóricos para se pensarem futuramente as relações, complexas por suposto, entre religião e sociedade.

 Algo que julgamos relevante para uma espiritualidade de matiz ecumênica que responda, pelo menos em parte, aos desafios de uma teologia das religiões para os nossos dias, arquitetada sob a égide do princípio pluralista, é a possibilidade de dar maior visibilidade a caminhos criativos e plurais – ou mesmo construí-los – que realcem a mística inter-religiosa e o diálogo, em especial relacionados à alteridade ecumênica, em seu sentido amplo, e que mantenham horizontes amplos dos compromissos éticos socialmente responsáveis.

 Para isso, foi necessário beber de muitas e variadas fontes. Bingemer, por exemplo, a partir do ponto de vista pneumatológico, já estruturara sua reflexão sobre o diálogo inter-religioso quando integrou um dos marcos desse tema no Brasil, a obra Diálogo de pássaros: nos caminhos do diálogo inter-religioso, organizada por Faustino Teixeira (1993).

 Nela, a autora indicou “a Pneumatologia como possibilidade de diálogo e missão universais” ao destacar que salvação é um dom do Espírito para toda a criatura e que a presença do Espírito de Deus dentro dos seres humanos “altera e afeta suas mais profundas e essenciais categorias antropológicas constitutivas, subvertendo radicalmente os fundamentos do seu ser” (Bingemer, 1993a, p. 114).

 Uma década depois, ao reforçar a perspectiva trinitária, a teóloga insiste no mistério da revelação e no valor da pluralidade. O primeiro, ao indicar, seguindo as trilhas do pensamento agostiniano, “que é impossível entender, captar completamente o Deus Uno e Trino da nossa fé.

 Mas é possível, sim, conhecê-lo na medida em que ele mesmo revela seu Mistério aos sedentos e amorosos que o buscam” (Bingemer; Feller, 2003, p. 14). O segundo, a pluralidade, por entender que não se trata de mera questão de diferenciação humana, mas uma percepção de que sistema algum pode se pretender como tendo respostas absolutas e que abranjam toda a realidade, pois todo discurso com pretensões à universalização e à totalização é redutor, inadequado e gera indiferença e desencantamento. Tais perspectivas marcaram decisivamente o pensamento teológico da autora.

 Embora existam nexos entre violência e religião, herdados de longas tradições culturais e religiosas e que ainda marcam os tempos atuais, há, não obstante a isso, elementos dentro das próprias dinâmicas e conceituações religiosas que são geradores da paz (Pikaza, 2008). Ligada a essa postura está a dimensão ética. Para as religiões monoteístas, que têm como base a revelação e o caráter profético, “a incondicionalidade e universalidade das exigências éticas é o Incondicional que se revela e faz presente em todo o condicionado, o Sentido último e radical do homem, ao qual chamamos Deus” (Bingemer, 2004, p. 13).

 A divindade amorosa que busca redimir a humanidade é o balizador ético que impulsiona todos e todas a fazerem o mesmo ato redentor, e daí surgem diferentes desafios e possibilidades, todos conectados com as bases conceituais do princípio pluralista. O mais fecundo é o da “escuta”; saber ouvir o diferente. Trata-se da


[...] tentativa de nos submeter à verdade onde quer que ela se encontre, aceitando o pluralismo de perspectivas e de nomes, quaisquer que eles sejam e onde quer que pulse o coração da vida. Esta missão é “sair” da violência mimética e redutora da alteridade do outro e entrar numa dinâmica de paz polifacética e plural (Bingemer, 2001, p. 288).

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