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Natal na Barca – Conto de Lygia Fagundes Telles

Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca, apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com uma criança e eu O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga. Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. Estávamos sós. E o melhor ainda era não fazer nada, não dizer nada, apenas olhar o sulco negro que a emba...

EDIÇÃO 244 | 19 NOVEMBRO 2007 - IHU _ Uma conversa sobre o Sermão do Bom Ladrão

  Nesta entrevista, Deonísio “conversa” com Antônio Vieira, tendo como pano de fundo O Sermão do Bom Ladrão e o da Sexagésima, ambos proferidos pelo jesuíta em 1655.  A introdução à entrevista é do próprio escritor que se faz repórter. O escritor  Deonísio da Silva  é doutor em Letras, pela Universidade de São Paulo (USP), e vice-reitor de pós-graduação e pesquisa da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. Fez o mestrado em Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tem 31 livros publicados, entre os quais citamos  Nos bastidores da censura  (São Paulo: Estação Liberdade, 1989), sua tese de doutoramento, e os romances  A cidade dos padres  (São Paulo: Manole, 1986);  Orelhas de aluguel  (Rio de Janeiro: Guanabara, 1988); e  Avante soldados para trás  (São Paulo: Siciliano, 1992) (Prêmio Internacional Casa de las Américas), publicados também em outros países. Seus livros mais recentes são  Os segredos do ...

Ensino Religioso - síntese de seu desempenho recente

    Desde 2014, a Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esportes do Acre - SEE, deu início, sob orientação dos Assessores Cid Mauro Araujo de Oliveira e Ivanilde Lopes da Silva, uma sequência de Formações para professores do Ensino Religioso.     Tanto o Fórum de Ensino Religisoso, instalado em 2002, que produziu o primeiro Currículo de Ensino Religioso do Acre, para as antigas 1ª a 4ª e 5ª a 8ª séries, quanto o lançamento da Cartilha de Diversidade Religiosa, em 2010, pelo Instituto Ecumênico Fé e Política, foram apresentados aos professores, nessas Formações, representando um grande salto e incremento ao Ensino Religioso no estado do Acre.    No período de 2017 a 2019, esse Currículo de 2002 foi cotejado com os objetivos de ensino, por meio de competências e habilidades constantes na Base Nacional Comum Curricular - BNCC, para que se adaptasse à nova nomenclatura do Ensino Fundamental dos Anos Iniciais, 1⁰ ao 5⁰ anos, e Anos Finais, 6⁰ ao 9⁰ an...

Resumo de texto

  Resumo de Texto Daniela Diana  -  Professora licenciada em Letras O resumo de texto é um mecanismo em que se aponta somente as ideias principais de um texto fonte, de forma que é produzido um novo texto, no entanto, de maneira resumida, abreviada ou sintetizada. Em outras palavras, o resumo é a compilação de informações mais relevantes de um texto original e não uma cópia. Podemos fazer o resumo de um livro, capítulo, conto, artigo, dentre outros. Alguns especialistas apontam que o resumo deve conter pelo menos 30% do documento original, ou seja, se um texto apresenta 10 páginas, o resumo deverá conter 3 laudas. Sem que notemos, utilizamos o resumo de diversas maneiras no dia a dia. Isso acontece, sobretudo, na linguagem informal, quando contamos um fato para os amigos, um filme que passou na televisão, o capítulo da novela ou do seriado, a aula em que não estivemos ou um livro que lemos e queremos indicar. Quais são os 3 tipos de resumo? Antes de começa...

Habacuque, o profeta da plaqueta, denuncia a violência

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    ² "Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! E não salvarás" Habacuque 1:2    Pergunta difícil. Não dá para sondar os desígnios de Deus. Assim como responsabilizá-lo por decisões humanas.   A violência é essencialmente humana. Um camarada chamado René Girard (leia /ê/), filósofo, antropólogo e teólogo, desenvolve uma teoria mimética.   Esta palavra provém de mimeses e significa "imitação". Esse filósofo afirma que toda sociedade elege, para si, um bode expiatório, no qual enxerga a si mesma.   E a morte desse animal alivia a sede humana intrínseca por violência. A seguinte frase dos fariseus, em relação a Jesus, reflete essa dedução funcional de Girard:     ⁴⁹ "Caifás, porém, um dentre eles, sumo sacerdote naquele ano, advertiu-os, dizendo: Vós nada sabeis, ⁵⁰ nem considerais que vos convém que morra um só homem pelo povo e que não venha a perecer toda a nação." Jo 11.    Espelha-se, dessa ...

A teologia crítica de Kant: da fé racional à fé reflexionante - Fco das Chagas de Oliveira Freire

A teologia crítica de Kant:  da fé racional à fé reflexionante *Franscisco das Chagas de Oliveira Freire (Doutor em Filosofia pela Universidade de Coimbra. https://orcid.org 0000-0002-8000-5447. Contato: freirefranz@gmail.com).  Resumo O rigor com que Kant nega a possibilidade de demonstração   teórica   da   existência   de   Deus,   aliada   a   uma   hermenêutica que focaliza o sistema kantiano a partir da teoria do conhecimento, induziu numerosos intérpretes a considerar a expressão “teologia kantiana” como um oxímoro. Intérpretes prestigiados   o   veem   como   agnóstico   ou,   na   melhor   das   hipóteses,   deísta.   Em   todo   caso,   Kant   não   admitiria   um   fundamento   racional   para   a   religião   e   a   teologia.   O   presente   artigo tem a intenção de examinar os...